19 de junho de 2025. Eram 19h07 e vejo pela janela uma luz branca muito forte. Ouço gritos: “Polícia! No chão, no chão! Busca policial!”.
Esses gritos ainda não eram no meu quarto. Eu morava — e ainda moro (janeiro de 2026) — em um terreno onde existem seis barracos de alvenaria precária, num bairro que pode ser considerado uma favela, ou o começo de uma, as primeiras quadras.
Voltando aos gritos: primeiro pensei que fosse no terreno ao lado, pois lá também existem vários barracos ligados por um corredor interno. Mas não; o círculo de luz potente vinha deste terreno.
Eu estava sentado no meu laboratório de eletrônica, consertando celulares. Na hora entendi o que estava acontecendo. Largo o que estou fazendo, viro para minha mãe — que naquele momento falava ao telefone — e digo: “Fica tranquila, é uma batida”. “Não!”, ela mal conseguiu responder, e um segundo depois um oficial com o rosto coberto, vestido como esses policiais de grupos táticos, chuta a porta repetindo os gritos que mencionei no primeiro parágrafo.
— As mãos! As mãos! Levanta as mãos! — referindo-se a mim, enquanto apontava uma metralhadora para minha cabeça. Depois que levantei os braços, ele continuou: — Ajoelha! — eu ajoelhei — Deita de bruços, agora!
Deitei no chão. Sinto que ele coloca o pé nas minhas costas, me pisando, e encosta a arma na lateral da minha cabeça, já que eu estava com o rosto colado no solo. Então entra outro oficial apontando para a cabeça da minha mãe e faz o mesmo.
Aquele dia me algemaram pela primeira vez, mas nunca vou esquecer a metralhadora apontada para minha mãe. Por quê? Nós estávamos tranquilos porque sabíamos de antemão que todo aquele circo e aparato não era para nós, mas… esse é o poder de investigação das forças federais?
Bem, naquela noite, me mantiveram algemado até as 3 da manhã e depois me levaram para a delegacia até as 5h.
No meio disso, levaram um vizinho que morava no mesmo terreno onde eu alugava (e ainda alugo). Esse vizinho foi condenado a 4 anos de prisão num julgamento abreviado por posse de 800g de maconha. Por enquanto não falarei mais sobre ele, já que estou criando outro texto sobre sua vida e sobre o que leva um homem à prisão.
O que eu nunca esperei é que, pelo simples fato de morar num bairro marginal, num quarto de aspecto rudimentar, levariam todo o meu esforço. “Por via das dúvidas”, apreenderam toda a minha oficina e todos os equipamentos que encontraram. Ou seja, por proximidade, eu, para a justiça (e para qualquer pessoa, já que é assim que as coisas funcionam), era um criminoso.
Tiraram absolutamente tudo com que eu trabalhava e me deixaram uma dívida gigante, pois tive que repor aparelhos novos para muitos clientes. Ou seja: de um dia para o outro eu estava sem nada, sem propósito, sem ferramentas, endividado e sob investigação criminal, por assim dizer. Apenas por morar no mesmo terreno.
Lembro da conversa com o oficial na delegacia: — Você cheira pó? — Não. — Fuma um baseado? — Não. — Me diz, Peralta… o que você está fazendo lá? — Meu nome é Diego Fernández. Não sei com quem o senhor está me confundindo. — Tudo bem, Fernández… me conta o que rola lá.
Esbocei um sorriso e não disse nada. O silêncio durou um tempo enquanto o cara escrevia no computador. — Vai para casa, muleque.
Quem é um leitor atento entende e sabe que essas coisas acontecem. Sabe da impunidade policial e judicial, da violência com que são tratados os moleques, as garotas, as famílias, as crianças (sim, porque várias crianças foram pisoteadas ao se atravessarem na frente dos oficiais quando invadiram o terreno). Mas viver isso de perto, na própria pele, a única coisa que desperta é um ódio sedento de sangue, vingança e violência desatada.
Pelo menos, em primeira instância.
A DEPRESSÃO Antes disso acontecer, eu acreditava que às vezes ficava deprimido, mas ali conheci a depressão de verdade. Ficar dois meses sem tomar banho, não conseguir sair no quintal, não pensar, quase não comer, dormir e dormir. Perder os sonhos, as metas, os objetivos e as ferramentas para alcaná-los — inclusive meu próprio celular para me comunicar com os clientes, perdendo centenas de contatos conquistados em um ano e meio de trabalho.
Lembro que em uma das audiências do meu vizinho, o promotor incluiu toda a minha oficina e todos os aparelhos dos meus clientes, inclusive o meu, como: “parte do pagamento de drogas”. E que, além disso, a quantidade de dispositivos eletrônicos revelava “irrefutavelmente a atividade criminosa”.
Fiquei chocado. Era um absurdo. Não iam me devolver absolutamente nada e, além disso, usavam meu trabalho como prova contra meu vizinho. A JUSTIÇA ARGENTINA.
O que eu podia fazer? Eu estava quebrado por ter que pagar todos os celulares e notebooks dos clientes, placas de vídeo, fontes etc.
E qualquer tentativa de empreender corria — e ainda corre — o risco de ter o mesmo destino: apreensão “por via das dúvidas”. Pensei: “o que quer que eu faça, tem que ser mental, intelectual, algo que nunca possam me tirar”.
A conclusão: continuar escrevendo, reencontrar minha voz e criar não apenas arte, mas fogo.