Fanzine “Guerra Sem Quartel”: #01. POR TRÁS DE UM APLAUSO

As soluções inadequadas nascem de bocas comuns, escravas. O esquecimento como premonição e qualquer voz servindo de combustível. Um sujeito comum, uma mulher comum, velhos comuns — pedem morte, bombas. Derrubar um prédio com todos os presos lá dentro.

“Não se perde nada”, “por alguma coisa estão lá”, “eles merecem”.

Confiança cega. O poder se alimenta da própria excitação; ele te dá o que você quer. Mas para a justiça, o fato de você aplaudir sem contexto nem provas significa apenas uma coisa: “os fins justificam os meios”.

Muitas vezes, apenas estar no lugar e na hora errada é o suficiente para cair na prisão. Não ter nada na carteira aumenta as chances. São milhares de inocentes atrás das grades neste país. Não é ser estúpido; é enxergar a engrenagem judicial. Os promotores amam encarcerar sem hesitação; todo o pressuposto de um processo é um mero achismo (nos casos de inocentes).

Mas como uma pessoa pode presumir as ações e motivações que caem como acusações sobre o inocente? Como um rico faz para imaginar onde um pobre come, onde ele caga e como dorme? Com o que sua alma sonha e qual “suposição” o mantém preso?

Foucault sugeria que “certa” alma conseguia se materializar no corpo, e a justiça é viciada nesse tipo de alma, a ponto de precisar inventar causas. Também é importante se perguntar de onde nasce o desejo de vingança dos que aplaudem, chegando à loucura de não distinguir inocentes de culpados.

A história da evolução do poder consegue fazer de você a vítima; a dívida é com a sociedade — é com você, o cidadão de bem. Vendo isso, surge uma armadilha de dois gumes. Por um lado, seja você inocente ou culpado, sua dívida é com todos; e sendo a sociedade a vítima, é essa massa infinita de gente que começa a te julgar.

Parece que estranhos ao agressor e à vítima são os que detêm o direito e o privilégio do perdão. Por outro lado, ao generalizar, corre-se o perigo de cometer uma absolvição; mas atenção, esse movimento é calculado.

Já que quem condena é a sociedade (nesse risco de autoabsolvição judicial) e não o devido processo, toda suposição e investigação parece um mero espetáculo para o público. A justiça se torna um mecanismo perverso que precisa dar respostas à sociedade, e não mais determinar a culpabilidade de forma objetiva.

Continua aplaudindo, querido, mas não se esqueça: se apostarmos o seu sangue, não encontraremos pureza. Sua única proteção é o dinheiro. Como uma batida policial na casa de um amigo. Não há inocentes. Nossa natureza é o erro.

A maneira como este país funciona se assemelha à maquinaria nazista de perseguição étnica. A única diferença é que não extermina.

Baseio-me no fato de que o condenado não é o único que sofre em corpo e alma; seus familiares também carregam o peso da condenação social. Até suas amizades começam a se questionar se querem continuar fazendo parte daquele círculo, se é o correto, ou se isso traria problemas para o próprio pescoço. Naturalmente, todo sonho e toda alma desaparecem.

Se toda condenação não fosse social, talvez a justiça levasse mais tempo para decidir se arruina ou não uma vida, se isso é merecido ou não.

Seguindo este modelo, que carrega sombras da Alemanha nazista, as pessoas comuns não sabem que podem ser perseguidas por quase qualquer coisa. Um engano, uma atitude egoísta, uma pequena vantagem, um castigo de infância, um crime atroz, atravessar exatamente onde não devia, ser vizinho de alguém, sorrir, cumprimentar ou apertar a mão de um criminoso menor, quase insignificante, pode transformar você no maior monstro da terra para o promotor de plantão.

Não há uma linha tênue, nem de traço grosso. Toda investigação carece do intelecto necessário para ser imparcial; estar ou não na prisão depende de um momento, de um lugar e de simplesmente estar ali ou não — sem nunca esquecer o dinheiro.

O egoísmo, a trapaça, a covardia e o amor são nossas moedas. E tenho certeza de que, se qualquer promotor tivesse acesso ao cotidiano e à privacidade de cada pessoa, 95% da civilização humana veria o interior de uma cela por causa do menor detalhe.

Fanzine “Guerra Sem Quartel”: #06 – A Batida: Sede de Vingança

19 de junho de 2025. Eram 19h07 e vejo pela janela uma luz branca muito forte. Ouço gritos: “Polícia! No chão, no chão! Busca policial!”.

Esses gritos ainda não eram no meu quarto. Eu morava — e ainda moro (janeiro de 2026) — em um terreno onde existem seis barracos de alvenaria precária, num bairro que pode ser considerado uma favela, ou o começo de uma, as primeiras quadras.

Voltando aos gritos: primeiro pensei que fosse no terreno ao lado, pois lá também existem vários barracos ligados por um corredor interno. Mas não; o círculo de luz potente vinha deste terreno.

Eu estava sentado no meu laboratório de eletrônica, consertando celulares. Na hora entendi o que estava acontecendo. Largo o que estou fazendo, viro para minha mãe — que naquele momento falava ao telefone — e digo: “Fica tranquila, é uma batida”. “Não!”, ela mal conseguiu responder, e um segundo depois um oficial com o rosto coberto, vestido como esses policiais de grupos táticos, chuta a porta repetindo os gritos que mencionei no primeiro parágrafo.

— As mãos! As mãos! Levanta as mãos! — referindo-se a mim, enquanto apontava uma metralhadora para minha cabeça. Depois que levantei os braços, ele continuou: — Ajoelha! — eu ajoelhei — Deita de bruços, agora!

Deitei no chão. Sinto que ele coloca o pé nas minhas costas, me pisando, e encosta a arma na lateral da minha cabeça, já que eu estava com o rosto colado no solo. Então entra outro oficial apontando para a cabeça da minha mãe e faz o mesmo.

Aquele dia me algemaram pela primeira vez, mas nunca vou esquecer a metralhadora apontada para minha mãe. Por quê? Nós estávamos tranquilos porque sabíamos de antemão que todo aquele circo e aparato não era para nós, mas… esse é o poder de investigação das forças federais?

Bem, naquela noite, me mantiveram algemado até as 3 da manhã e depois me levaram para a delegacia até as 5h.

No meio disso, levaram um vizinho que morava no mesmo terreno onde eu alugava (e ainda alugo). Esse vizinho foi condenado a 4 anos de prisão num julgamento abreviado por posse de 800g de maconha. Por enquanto não falarei mais sobre ele, já que estou criando outro texto sobre sua vida e sobre o que leva um homem à prisão.

O que eu nunca esperei é que, pelo simples fato de morar num bairro marginal, num quarto de aspecto rudimentar, levariam todo o meu esforço. “Por via das dúvidas”, apreenderam toda a minha oficina e todos os equipamentos que encontraram. Ou seja, por proximidade, eu, para a justiça (e para qualquer pessoa, já que é assim que as coisas funcionam), era um criminoso.

Tiraram absolutamente tudo com que eu trabalhava e me deixaram uma dívida gigante, pois tive que repor aparelhos novos para muitos clientes. Ou seja: de um dia para o outro eu estava sem nada, sem propósito, sem ferramentas, endividado e sob investigação criminal, por assim dizer. Apenas por morar no mesmo terreno.

Lembro da conversa com o oficial na delegacia: — Você cheira pó? — Não. — Fuma um baseado? — Não. — Me diz, Peralta… o que você está fazendo lá? — Meu nome é Diego Fernández. Não sei com quem o senhor está me confundindo. — Tudo bem, Fernández… me conta o que rola lá.

Esbocei um sorriso e não disse nada. O silêncio durou um tempo enquanto o cara escrevia no computador. — Vai para casa, muleque.

Quem é um leitor atento entende e sabe que essas coisas acontecem. Sabe da impunidade policial e judicial, da violência com que são tratados os moleques, as garotas, as famílias, as crianças (sim, porque várias crianças foram pisoteadas ao se atravessarem na frente dos oficiais quando invadiram o terreno). Mas viver isso de perto, na própria pele, a única coisa que desperta é um ódio sedento de sangue, vingança e violência desatada.

Pelo menos, em primeira instância.

A DEPRESSÃO Antes disso acontecer, eu acreditava que às vezes ficava deprimido, mas ali conheci a depressão de verdade. Ficar dois meses sem tomar banho, não conseguir sair no quintal, não pensar, quase não comer, dormir e dormir. Perder os sonhos, as metas, os objetivos e as ferramentas para alcaná-los — inclusive meu próprio celular para me comunicar com os clientes, perdendo centenas de contatos conquistados em um ano e meio de trabalho.

Lembro que em uma das audiências do meu vizinho, o promotor incluiu toda a minha oficina e todos os aparelhos dos meus clientes, inclusive o meu, como: “parte do pagamento de drogas”. E que, além disso, a quantidade de dispositivos eletrônicos revelava “irrefutavelmente a atividade criminosa”.

Fiquei chocado. Era um absurdo. Não iam me devolver absolutamente nada e, além disso, usavam meu trabalho como prova contra meu vizinho. A JUSTIÇA ARGENTINA.

O que eu podia fazer? Eu estava quebrado por ter que pagar todos os celulares e notebooks dos clientes, placas de vídeo, fontes etc.

E qualquer tentativa de empreender corria — e ainda corre — o risco de ter o mesmo destino: apreensão “por via das dúvidas”. Pensei: “o que quer que eu faça, tem que ser mental, intelectual, algo que nunca possam me tirar”.

A conclusão: continuar escrevendo, reencontrar minha voz e criar não apenas arte, mas fogo.