As soluções inadequadas nascem de bocas comuns, escravas. O esquecimento como premonição e qualquer voz servindo de combustível. Um sujeito comum, uma mulher comum, velhos comuns — pedem morte, bombas. Derrubar um prédio com todos os presos lá dentro.
“Não se perde nada”, “por alguma coisa estão lá”, “eles merecem”.
Confiança cega. O poder se alimenta da própria excitação; ele te dá o que você quer. Mas para a justiça, o fato de você aplaudir sem contexto nem provas significa apenas uma coisa: “os fins justificam os meios”.
Muitas vezes, apenas estar no lugar e na hora errada é o suficiente para cair na prisão. Não ter nada na carteira aumenta as chances. São milhares de inocentes atrás das grades neste país. Não é ser estúpido; é enxergar a engrenagem judicial. Os promotores amam encarcerar sem hesitação; todo o pressuposto de um processo é um mero achismo (nos casos de inocentes).
Mas como uma pessoa pode presumir as ações e motivações que caem como acusações sobre o inocente? Como um rico faz para imaginar onde um pobre come, onde ele caga e como dorme? Com o que sua alma sonha e qual “suposição” o mantém preso?
Foucault sugeria que “certa” alma conseguia se materializar no corpo, e a justiça é viciada nesse tipo de alma, a ponto de precisar inventar causas. Também é importante se perguntar de onde nasce o desejo de vingança dos que aplaudem, chegando à loucura de não distinguir inocentes de culpados.
A história da evolução do poder consegue fazer de você a vítima; a dívida é com a sociedade — é com você, o cidadão de bem. Vendo isso, surge uma armadilha de dois gumes. Por um lado, seja você inocente ou culpado, sua dívida é com todos; e sendo a sociedade a vítima, é essa massa infinita de gente que começa a te julgar.
Parece que estranhos ao agressor e à vítima são os que detêm o direito e o privilégio do perdão. Por outro lado, ao generalizar, corre-se o perigo de cometer uma absolvição; mas atenção, esse movimento é calculado.
Já que quem condena é a sociedade (nesse risco de autoabsolvição judicial) e não o devido processo, toda suposição e investigação parece um mero espetáculo para o público. A justiça se torna um mecanismo perverso que precisa dar respostas à sociedade, e não mais determinar a culpabilidade de forma objetiva.
Continua aplaudindo, querido, mas não se esqueça: se apostarmos o seu sangue, não encontraremos pureza. Sua única proteção é o dinheiro. Como uma batida policial na casa de um amigo. Não há inocentes. Nossa natureza é o erro.
A maneira como este país funciona se assemelha à maquinaria nazista de perseguição étnica. A única diferença é que não extermina.
Baseio-me no fato de que o condenado não é o único que sofre em corpo e alma; seus familiares também carregam o peso da condenação social. Até suas amizades começam a se questionar se querem continuar fazendo parte daquele círculo, se é o correto, ou se isso traria problemas para o próprio pescoço. Naturalmente, todo sonho e toda alma desaparecem.
Se toda condenação não fosse social, talvez a justiça levasse mais tempo para decidir se arruina ou não uma vida, se isso é merecido ou não.
Seguindo este modelo, que carrega sombras da Alemanha nazista, as pessoas comuns não sabem que podem ser perseguidas por quase qualquer coisa. Um engano, uma atitude egoísta, uma pequena vantagem, um castigo de infância, um crime atroz, atravessar exatamente onde não devia, ser vizinho de alguém, sorrir, cumprimentar ou apertar a mão de um criminoso menor, quase insignificante, pode transformar você no maior monstro da terra para o promotor de plantão.
Não há uma linha tênue, nem de traço grosso. Toda investigação carece do intelecto necessário para ser imparcial; estar ou não na prisão depende de um momento, de um lugar e de simplesmente estar ali ou não — sem nunca esquecer o dinheiro.
O egoísmo, a trapaça, a covardia e o amor são nossas moedas. E tenho certeza de que, se qualquer promotor tivesse acesso ao cotidiano e à privacidade de cada pessoa, 95% da civilização humana veria o interior de uma cela por causa do menor detalhe.